domingo, 5 de julho de 2009

Annie Leibovitz em Paraty, 17 anos atrás

Enquanto preparava a matéria sobre a Flip (publicada logo abaixo) me lembrei que a Annie Leibovitz havia estado em Paraty, há muito tempo, fotografando o inesquecível Paulo Autran para uma campanha publicitária do cartão American Express.

Naquela época, Annie viajou o mundo inteiro fotografando celebridades em diversos países e o resultado era visto sempre na última capa das revistas mais importantes. Eu até cheguei a colecionar essas capas, só não me lembro onde estão.

Mas sabia que tinha guardado uma entrevista dela para o Segundo Caderno de O Globo. Revirei o meu baú de revistas, jornais e recortes sobre fotografia juntados durante muitos anos e encontrei a tal matéria, feita pela repórter Isabel Cristina Mauad e publicada na edição de 26 de maio de 1992.

Copiei todo o texto sem mudar praticamente nada e foi como se eu o tivesse lido pela primeira vez. Muita coisa continua atual, 17 anos depois, e mesmo o que é definitivamente passado - como os filmes fotográficos - parece coisa de poucos meses atrás.

Devo dizer que minha intenção inicial era apenas passar a entrevista para o computador, antes que o amarelado do jornal a tornasse ilegível. Mas resolvi aproveitar o gancho da Flip e publicá-la aqui no Blog da Foto, inaugurando uma série de postagens históricas feitas com matérias encontradas no fundo do meu baú fotográfico, coisas que eu nem me lembrava mais que existiam.

Aguardem, pois, outras viagens ao passado.

A lente mais subjetiva

Matéria de Isabel Cristina Mauad, em O Globo (26/05/1992)

Ninguém diria, ao vê-la iniciar um trabalho, que esta mulher é uma das mais experientes e bem-sucedidas fotógrafas do mundo, com 23 anos de profissão e uma bagagem de centenas de fotos das personalidades mais conhecidas internacionalmente.

O nervosismo da "fotógrafa das celebridades", como é conhecida Annie Leibovitz, de 42 anos, é evidente. Fala rispidamente com seus assistentes, proíbe qualquer pessoa de se aproximar e se irrita quando isso acontece.

Em Paraty, onde desembarcou de um helicóptero na manhã de sexta-feira, após ter chegado dos EUA no aeroporto de São Paulo para iniciar uma série de fotos para a campanha publicitária do American Express Card, Annie deu uma entrevista ao Globo.

Mas só no sábado à noite, quando começou a se sentir relaxada e satisfeita com os resultados de suas primeiras sessões fotográficas com Paulo Autran - o primeiro fotografado da série de brasileiros para a campanha. Os outros são Gilberto Gil, Tomie Ohtake e Ivo Pitanguy.

O Globo - Como foi o trabalho com Paulo Autran?

Annie - Emocional e comovente. Talvez estivesse sendo difícil para ele, após a morte do seu sócio no hotel (Fábio Vilaboim, na Pousada Pardieiro), mas foi muito bonito ver esta emoção. Quando entrei em sua casa, antes de conhecê-lo, vi a simplicidade na maneira como vivia e me impressionei com o amor que ele tem pela vida simples, Decidi fotografá-lo em seu quarto. Usei elementos simples de composição. Sua linguagem corporal é muito natural.

O Globo - Por que o seu nervosismo antes de iniciar um trabalho?

Annie - (Ri muito) Pelos motivos óbvios. São muitas variáveis. Para as pessoas que trabalham comigo é normal.

O Globo - Quantas fotos bate e como opta por uma?

Annie - Normalmente, trabalho durante dois dias, o que não significa fotografar 48 horas. Gosto do contato com a pessoa. Cada vez que bato uma foto é uma situação diferente. Numa sessão, faço entre 20 e 40 rolos. Mas a quantidade de rolos não tem nada a ver. Escolho uma foto por uma mistura de composição e feeling. Às vezes, ficam duas ou três que nem sei qual a melhor. Consulto então o diretor de arte, mas ele tem de me convencer. É como escolher entre dois filhos.

O Globo - O que procura transmitir numa foto?

Annie - Mesmo com a foto composta e cenário montado, gosto de bastante verdade. É impossível mostrar tudo. Aprendi que só posso mostrar uma coisa ou uma parte. Às vezes só enxergo a pessoa num momento de sua vida.

O Globo - Foi noticiado que seu trabalho está em fase de mostrar a intimidade das pessoas.

Annie - (Rindo) As fases dependem do humor do fotografado. É muito bonito o fotógrafo achar que pode entrar mais dentro da pessoa, mas nem sempre é necessário nem possível.

O Globo - Quais as exigências que faz para aceitar um trabalho?

Annie - Há coisas que gostaria de ter mas que nem sempre consigo. O mais importante é tempo. O processo é vagaroso e faço da melhor maneira que posso no tempo que tenho.

O Globo - Prefere fotojornalismo ou publicidade?

Annie - Comecei como fotógrafa de rua. Senti que em jornalismo o fotógrafo fica do lado de fora olhando para dentro. Quando comecei a tirar fotos de pessoas, vi que teria de entrar mais dentro, conhecer a pessoa melhor. Não dava para colocar esta barreira da foto de jornal.

O Globo - Isto significa que prefere a de publicidade?

Annie - Sim, mas chamo de retratos. Quando a fotografia foi inventada, Nadar começou com retratos.

O Globo - Você não veio à sua exposição "Portraits" no Brasil, ano passado, e foi noticiado que, segundo seu estúdio, o cólera e a dengue não a tinham estimulado.

Annie - É a primeira vez que ouço isto. É inacreditável. Fiquei chateada de não poder vir. E já tinha estado no Rio e Paraty em 1986 para fazer a capa de Jerry Hall, mulher de Mick Jagger. E, aliás, minha amiga e sócia era Bea Feitler, brasileira, grande diretora de arte, que morreu em 1983. Por ela conheci o Brasil antes de vir. Esta idéia de que eu não quis vir não faz sentido.

O Globo - Compara o seu trabalho a algum outro?

Annie - Lartigue fotografou a família inteira durante a vida toda. Também gostaria de fazer isto, não necessariamente igual a ele, mas como um modo de vida. O importante é ver o conjunto. As exposições mais bonitas que vi foram retrospectivas.

O Globo - O seu livro de retrospectiva, lançado em 1991, será publicado aqui?

Annie - Gostaria muito. Esgotou nos Eua. Mas o mundo inteiro está em depressão e os editores não correm riscos.

O Globo - Sua preferência é cor ou preto e branco?

Annie - Gosto de usar o que é apropriado para a pessoa. Acabo de atravessar uma fase de preto e branco com dançarinos. Agora estou mais interessada em cor. É mais difícil, pois tecnicamente não tem tanta latitude como preto e branco. Ainda não existe um filme muito bom, em cores, de velocidade rápida.

O Globo - Conhece trabalhos de brasileiros?

Annie - Os de Sebastião Salgado. Coleciono fotos e, no Natal, quis comprar uma dele. Mas havia gastado muito e achei caro. Ele ficou sabendo e me mandou uma de presente, autografada. É provavelmente o mais importante fotógrafo de hoje.

O Globo - Tem alguma expectativa em relação a seus próximos trabalhos aqui?

Annie - Estou descobrindo o que sempre suspeitei: o brasileiro tem muita espiritualidade. É sadio e ótimo estar em torno de pessoas assim. Com isto não estou dizendo que vai ser fácil. Mesmo que hoje, com Paulo Autran, tenha sido muito bonito - e um dia como hoje faz com que tudo valha a pena - não quer dizer que foi fácil. As pessoas a serem fotografadas são interessantes e diferentes. É uma mistura boa.

A doce Annie

Tensa, procurando locais onde pudesse fotografar o ator Paulo Autran, Annie andava rápida e ansiosamente pelas ruas de Paraty, olhando cada bar e cada casa comercial e, por vezes, aflitivamente balançando a cabeça em sinal negativo.

Ela só relaxou no sábado, após as primeiras fotos de Paulo Autran, no quarto de sua casa em Paraty. Deitado, sentado, encostado na cama, de diferentes modos ele se submeteu à sua câmera e aos efeitos de seus equipamentos - dezenas deles, carregados num caminhão. E uma magia conseguiu: seu nervosismo anterior não chegou a Paulo. "Ela é um doce", comentou o ator.

Quatro sessões

Na primeira sessão, 17 rolos com dez fotos cada. Já à tarde, bastante satisfeita com os resultados desta investida, Annie faria a segunda ao ar livre: Paulo numa mesa de bar em frente à praia, jogando cartas. Desta vez, 23 rolos (Nota do Blog da Foto: a foto escolhida para a campanha saiu desta sessão na mesa de bar). No domingo, teria outras duas sessões.

Trabalho e sorte

Annie atribui o seu sucesso ao trabalho - "todos sabem que o amo e sou obcecada" - e à sorte. Não à sorte de haver estado 13 horas antes do assassinato de John Lennon fotografando-o nu, em posição fetal, ao lado de Yoko Ono vestida de preto. Nem à sorte de ter flagrado Allen Ginsberg com um cigarro de maconha. Muito menos à de ter fotografado o humilhado Richard Nixon na saída da Casa Branca, no dia de sua renúncia.

A sorte, disse Annie, foi a de ter trabalhado para duas grandes revistas muito importantes para a época: "Rolling Stone" e "Vanity Fair" (Nota do BdF: Annie continua, 17 anos depois desta entrevista, fotografando para a "Vanity Fair").

PS do BdF: Reproduzir um texto desse tamanho implica em cometer muitos erros de digitação, que eu vou corrigir aos poucos nos próximos dias. Depois disso, se sobrar algum, por favor reclamem.

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2 Comments:

At 10:19 AM, Anonymous fore said...

Recentemente assisti o documentário Life Through a Lens que conta a vida da Annie... realmente fantástico acompanhar a tragetória da carreira da fotógrafa, recomendo a todos.

 
At 9:12 PM, Blogger Otacílio Rodrigues said...

Grande dica, fore! O documentário (havia assistido apenas o trailer) já está à disposição de todos aí em cima.
Grande abraço e apareça sempre.

 

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